Sei Que Não Vou Por Aí
Atualizado: 27 de set.

INTRÓITO
A poesia emergiu sem avisar. Como sói acontecer, diziam os antigos. Sem pensamento prévio. Uma palavra veio à tona. Rua. Então, as vogais se afastaram uma da outra, enquanto a consoante esvanecia até desaparecer.
Emergiram em seguida duas consoantes e postaram-se, cada qual, à esquerda de cada vogal. Outra palavra, muda, veio à superfície.
Mais um pouco, as duas sílabas se afastam e, no intervalo que se abre entre elas, a consoante sumida retorna, ocupando o espaço intermediário junto com a vogal desinente. A rua, muda, murada de silêncio.
Enfim, na rua murada uma sílaba ladra de letras infiltra-se, e uma rua murmurada emerge do silêncio.
Estava completo o poema. Ou estaria?
Qual o sentido? Haveria outra direção? Foram algumas questões que emergiram na mente da atriz, recitante, declamadora. Qual a raiz do silêncio? E do murmúrio? A rigidez dos costumes que a rua cala, mas que persistem à meia voz no interior das moradas cercadas? Ou a imposição política? Um ato, postura de resistência, que os muros não conseguem calar?
A atriz fez sua escolha. E decidiu pelo caminho inverso da estrada. Do murmúrio que se esconde por trás dos muros, sufocado pela imposição silente da rua.
Tempos depois, um arquitextor opta pela confluência de ambos os sentidos da estrada. Som e imagem como sentidos de direção, numa rua de mão dupla.
A primeira impressão é a que fica? Ou implica? O que não se explica?
No pátio de Cine Inês, reunem-se os kryptykoz e kyneaztaz do Coreto e os arquitetores da Coxia, dando início à elaboração da prosa do observatório que monitora a transferência de vulto em tela. A curadora, Madame Pochette, faz a leitura do termo de abertura do livro, no tomo que busca acompanhar a navegação de Agnes Dellacroix, a protonauta em pauta.
TERMO DE ABERTURA do livro CANTOS CORRENTES
CuraTela da Inexposição Madame Pochette
Sinopse A protonauta Agnes Dellacroix consente participar de uma transferência de alta volatilidade, quanto à compatibilidade entre a configuração espectral do ser e a configuração perceptual da sede condicionante.
Submetida a uma confecção experimental de energiaria táxtil de grande incerteza, ela não conta com recursos apropriados, plurais e diversificados, para enfrentar as eventuais imposições sensoriais às quais estará sujeita. O único instrumento garantidor com dose razoável de confiabilidade é a possibilidade de um imaginário diálogo com uma espécie de alter ego, ou um contraponto de alteridade, representado por um cantor, Paulinho da Vila.
O objetivo da transferência é aprofundar os estudos sobre concepções, intensamente debatidas pelos kyneaztaz e kryptykoz, a respeito de um suposto e possível estatuto fenomenológico do inexversus, e que os arquitextores decidem testar com o uso de recentes aprimoramentos na tecnologia de transferência de vultos (seres espectrais).
ATA DE LANÇAMENTO
Pareceres, previsões, orientações dos arquitextores, em mesa redonda no gabinete da Coxia, em Cine Inex.

Tema 01 - ERA UMA VEZ
Tema 02 - DE OLHO NA TELA
Tema 03 - A NOITE AMERICANA
Tema 04 - PERSONA
Tema 05 - LIMITES
Tema 06 - NA TRILHA DA MÚSICA
Tema 07 - CAFÉ SOCIETY
Tema 08 - LINHA DE MONTAGEM
Tema 09 - ASSINATURAS
Tema 10 - THAT´S ENTERTAINMENT!
Tema 11 - THE TALK OF THE TOWN
Tema 12 - ESCOLA DE CINEMA
ANTES DO LANÇAMENTO
Não é sobre ela. É sobre mim, disse o guarda-livros. Há muita coisa em comum. Sem dúvida, completou. Mas semelhante não é igual. Mundos paralelos só no infinito se encontram.


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